EVA- Exclusão de Valor Acrescentado, projecto de Residências de Criação Artística, arrancou em Junho de 2010 e durante dois meses, na Área Metropolitana de Lisboa, uma
iniciativa promovida pelo Programa Escolhas em parceria com o Clube
Português de Artes e Ideias, integrada no Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social. O Bairro 6 de Maio, Cova da Moura, Picheleira, Vale da Amoreira, Bairro do Armador, Martim
Moniz e Bairro Alto foram os locais de acolhimento de 7 residências de desenvolvimento de projectos artísticos orientados para a comunidade.
O Bairro 6 de Maio e o Bairro acolheu as artistas Catarina Gonçalves, Catarina Vasconcelos e Joana Manaças
Relato da experiência_
Junho e Julho foram meses de viagem a um outro país. O 6 de Maio. A
sua arquitectura de sobrevivência; as pessoas (de origem maioritariamente cabo-verdiana) que o construíram e que lá continuam a habitar; as ruas estreitíssimas, onde às vezes só passa um par de
ombros; a música africana
que foge constantemente das pequenas janelas; as muitíssimas crianças que
correm o bairro comendo gelados de gelo cor-de-rosa, vermelhos, cor-de-laranja; os grelhados de carne que se fazem em cada porta. Um bairro que se vive fora de casa. Não o conhecíamos, nunca lá
tínhamos estado. Foi-nos apresentado primeiramente pela Isabel Cadêncio, figura representativa da Associação Juvenil AnosKiTaManda e conhecedora do Bairro e dos seus caminhos. Conhecemos as
Batucadeiras Sem Converso, os Nós Terra, as Miss Love. Batíamos em cada porta, parávamos nos vários cafés, interpelávamos as pessoas nos pátios. Perguntávamos qual o sítio mais bonito; o melhor
esconderijo para namorar, para pedir um conselho, para dar uma boa notícia, para brincar. Queríamos que cada um nos contasse a sua história mais feliz e a mais triste. Paralelamente a todas estas
deambulações, uma questão não nos largava: O que estamos aqui a fazer? Estas pessoas não nos chamaram, não nos pediram nada. Vivem num bairro com condições profundamente precárias, com
necessidades enormes a nível social e habitacional. E, apesar disto abriam-nos sempre as portas e contavam as suas histórias, mostravam-nos as suas fotografias, ofereciam-nos pastéis de peixe.
Ficávamos com pele de galinha. Gravávamos conversas com o som de fundo do 6 de Maio, tirávamos fotografias, conversávamos e ouvíamos muito, desenhávamos com os miúdos.
Andávamos sempre cheias. E, em constante correspondência escrita entre as três, lançávamos ideias de como compilar todas estas preciosidades e de como, terminados os dois meses, poderíamos fazer
disto um objecto artístico. Mesmo assim, víamos um bairro de auto-construção, com casas cinzentas, que parecia por completar e com falta de auto-estima. Decidimos, então, pintar o Bairro.
Quisemos enchê-lo dele próprio. Lavar-lhe a cara e devolver orgulho através das cores. Traçámos um percurso por entre ruas, becos e escadas, onde pintámos, juntamente com as crianças e adultos do
Bairro, as paredes das pequenas casas. O público chegou no dia 31 de Julho para percorrer este caminho nos meandros do Bairro e tentar numa hora conhecer todas aquelas pessoas que nos acolheram.
Viram um jardim espalhado em alguidares no mais alto miradouro do 6 de Maio; flores semeadas pelo Sr.Pedro, em tempos agricultor e jardineiro, e por algumas crianças. Ouviram as meninas do Nós
Terra à capela e a balançar as ancas. Leram que “Quando se é jovem tem de se voar” e tiveram de “Seguir Caminho” até à música e dança das Batucadeiras, numa rua de dois metros só, onde o som e a
alegria ressoou por todo o bairro. Subiram ao telhado e viram as pequenas Miss Love, de vestidos cor-de-rosa, a dançarem Saquiche. Leram e perguntaram pela palavra Casa em envelopes air mail numa
parede vermelho sangue. Abriram outros envelopes, em cima de uma mesa feita de baldes de tinta, com bilhetes cor de rosa e fotografias de cada pessoa que fomos conhecendo. Ouviram os desejos e
sonhos das crianças em tom de segredo sussurrado ao ouvido, antes de passarem pelo mais pequeno corredor do Bairro, iluminado por luzes de Natal. Foi entre casas, becos e pátios, entre lanches e
almoços, entre canções e histórias de uma frase, entre as paletes de cores estridentes que se foram criando as traduções e opções artísticas do nosso projecto. Foi sempre entre a projecção dos
sonhos deles e as nossas visões práticas sobre o que pode ser Arte naquele específico mundo, que esta residência esteve e aconteceu. Ficámos a pensar: quando vamos para lá outra vez?
por Catarinas e Joana
Relatório da residência_
Viemos aqui parar em busca de histórias, de memórias, de identidade. O Bairro do Armador surge por volta de 1995 com uma população oriunda do Bairro do Relógio, da Quinta Marquês de Abrantes,
Quinta da Montanha, Quinta dos Cravos, Azinhaga das Teresinhas, Pote d'Água, Quinta das Flamengas e Quinta da Holandesa. Sítios tão diversos como culturas e etnias distintas. Parecia que o Bairro
não tinha uma identidade comum. E parecia-nos que estava escondido, que toda a sua vida se passava dentro das casas em altura. Explorámo-lo a pé e espalhámos envelopes com perguntas à população:
qual o sítio mais bonito? O que é o Bairro do Armador?
Através do PISCJA, da Kátia, da Ana e da Andreia conhecemos um grupo de
8 jovens entre os 16 e os 19 anos que nos mostraram o seu bairro, através de lugares por eles escolhidos onde nos contavam histórias ficcionadas ou memórias reais. Percebemos que queriam passear
fora do Bairro e começar a ter uma vida independente; dos pais, dos vizinhos, daquelas ruas onde foram coleccionando acontecimentos, Preparámos viagens aos nossos bairros; quisemos trazê-los aos
sítios onde vivemos e contarmos nós as nossas vidas. Achámos que poderia ser uma forma de nos unirmos. Por excesso de actividades, por ser o final do ano lectivo e entrada do Verão, por estarem a
começar estágios profissionais ou, simplesmente, por não terem motivação nenhuma e nem a isso estarem habituados, abandonaram o nosso projecto. Percebemos que a nossa luta e perseverança para
prosseguir com o projecto teriam de tomar contornos muito mais densos, criativos e flexíveis. Recomeçámos todo o processo com um grupo entre os 11 e os 14 anos. Com eles trabalhámos imaginários
de país, de bairro, de casa e de pessoas. Cada um criou um Bilhete de Identidade para o seu País imaginado. Definiu uma língua, um hino, o tipo de comida, as dimensões, o nome. Desenhou como
seria uma casa nesse lugar e definiu-a. Guardou o cheiro do país num frasquinho de vidro. Disseram-nos o que era Amor, Criança, Cidade, Família. Fizemos filmes de como nos cumprimentamos em cada
país inventado. Depois de idealizar todos estes conceitos, partimos em viagem pelo Bairro do Armador. E, como uma máquina fotográfica é um objecto indispensável numa viagem que se preze, cada
jovem escolheu um pormenor, uma paisagem e um amigo a captar no bairro onde vivem. Cada vez mais nos aproximávamos das suas realidades, das suas vidas quotidianas naquele lugar. Pedimos, então,
que trouxessem o brinquedo mais importante da sua infância. Deparámo-nos com fragilidades e grandes alegrias e juntos começámos a arrumar tudo. Para cada um, o seu armário. Forrados com tecidos
de cores e padrões diversos, os 8 armários de um antigo escritório tornaram-se no cantinho de cada um daqueles meninos que víamos dia após dia abrirem as suas vidas. Através da realidade ou da
ficção, fomos conhecendo a Andreia, a Márcia, o Zidane, o Francisco, a Camila, a Micaela, o Mário e o Airton . O tempo passado em conjunto e a perspectiva de se fazer um “espectáculo” onde
mostrávamos o que tínhamos feito, criava no grupo um sentido de compromisso, responsabilidade e enorme orgulho. Em suportes fotográficos, em cartas escritas, em mapas imaginários ou em frascos
que continham diversos segredos, abrimos os armários ao público. Num planalto de paralelepípedos cinzentos, preenchidos de vidas e que em muito se assemelhavam aos prédios deste Bairro,
projectámos vídeos desta grande viagem pelo Bairro do Armador. E cada pessoa do público, conduzida às escuras por um menino de lanterna em punho, podia bisbilhotar o que se passava no Armário
Armado do Armador.
por Catarinas e Joana